“Os sistemas de educação não foram feitos para chumbar alunos”
Por outro lado, o Ministério da Educação entende que é preciso reformular o curso nocturno, conjugando-o com o ensino à distância e vocacional, através da introdução de cursos técnicos de curta duração.
O ministro da Educação, Zeferino Martins, chamou, ontem, a imprensa para esclarecer o caso das “passagens automáticas” no ensino primário.
Martins explicou que não existem passagens automáticas no actual sistema de ensino primário, mas sim progressão por ciclos de aprendizagem, ou seja, a 1ª e 2ª classes são um ciclo de aprendizagem; 3ª a 5ª outro; e 6ª e 7ª classes o terceiro e o último ciclo do ensino primário.
Esses ciclos, segundo explicou o governante, não obedecem ao anterior esquema de ensino, em que uma classe coincidia com o ano civil, por isso, um aluno passava ou reprovava de classe no fim de cada ano. Agora, passa-se ou reprova-se no fim de dois ou três anos de formação, o que equivale a dizer que o ensino já não é feito por classes, mas por ciclos ou competências.
Por exemplo, só passa do primeiro ciclo o aluno que durante os dois anos tiver aprendido a falar e a escrever de forma clara em português; lê e escreve frases simples e pequenos textos; conta e escreve números naturais até 100; faça cálculo mental e escrito de adição e subtracção até 100; resolve problemas simples envolvendo a adição e subtração; e desenvolve o amor à pátria e conhecimento dos símbolos nacionais. Se um aluno não souber fazer o acima descrito, deve reprovar, e o professor tem a obrigação de acompanhar, ao longo dos dois anos, a evolução de cada aluno, de modo a suprir as dificuldades que vão surgindo.
Actualmente, a média de alunos por turma é de cerca de 65 e há escolas que chegam a 100 alunos, daí termos questionado ao ministro como é possível o professor acompanhar as dificuldades de cada aluno da sua turma. O ministro da Educação respondeu que Moçambique não é o único país que enfrenta esse dilema, os “tigres asiáticos” - Indonésia, Tailândia, Correia -, entre outros, tiveram o mesmo problema há 30 anos, mas hoje são exemplo de desenvolvimento económico e industrial... é preferível ter uma sala superlotada e, às vezes, com alunos a sentarem-se no chão, do que os ter na rua sem estudar”, disse Martins.
O governante diz que o sistema de progressão por ciclo de aprendizagem permitiu que mais crianças em idade escolar tivessem acesso à educação, pois, com o anterior currículo, apenas metade dos 6 milhões de alunos actualmente no sistema teriam vagas, até porque, com o sistema de reprovações por classe, o aproveitamento pedagógico era muito baixo. Por exemplo, segundo o ministro, numa escola primária que matriculava mil alunos na primeira classe, desses apenas cerca de 30 terminavam a 5ª classe sem chumbar, mas, com o novo currículo, apenas 25% dos alunos reprovam, em cada ciclo. “Está mais do que provado que as reprovações não são a garantia de qualidade no ensino”, assegura o ministro da Educação, para quem “os sistemas de educação não foram feitos para excluir, chumbar ou passar certificado de incompetência às pessoas, mas sim para ajudar as crianças a crescerem e a desenvolverem”.
O sector da educação decidiu, igualmente, introduzir provas de avaliação de assimilação de competências por parte dos alunos no meio de cada ciclo. Igualmente, serão aplicadas provas nacionais de avaliação de qualidade do sistema de ensino. Estas provas serão feitas por amostragem, em cada ciclo de aprendizagem de dois em dois ou três em três anos. Mas também será feita uma terceira avaliação, que deverá ser internacional, ou seja, feita por uma entidade estrangeira, de modo a aferir como é que os outros vêem o ensino moçambicano.
Qualidade sempre a baixar
Se em 2001 Moçambique estava a meio da tabela no ranking de qualidade de ensino nos 15 países da SADC, acima até da África do Sul, a pesquisa realizada em 2007 mostra que a qualidade de ensino baixou consideravelmente no país, porém, não é das piores. A pesquisa diz que a massificação do ensino primário esteve por detrás da degradação da qualidade de educação em Moçambique.
O ministro da Educação diz que se em 2001 o Ensino Primário do Segundo Grau, alvo da referida pesquisa regional, tinha cerca de 150 mil alunos, em 2007 o número subiu para 900 mil alunos, portanto, seis vezes mais.
Fonte: O País
